Por que os homens que fazem tricô são ''modernos'' e as mulheres ''antiquadas''?

16:48 Caixa Vintage 0 Comments


Há alguns meses eu estava em um sebo com meu namorado quando ele encontrou cinco livros azuis de capa dura que eram nada mais nada menos que a coleção “Mãos de ouro” de 1968, que ensina diversas técnicas de arte têxtil, aquelas as quais o mundo chama de artesanato (mesmo quando não está ligada a um sentido utilitário), passatempo ou trabalhos manuais “femininos”, ninguém chama de arte, arte jamais…

Esses livros me fizeram refletir sobre a desvalorização das artes desenvolvidas por mulheres. Os livros trazem em suas escritas a depreciação dos trabalhos que ensina em riqueza de detalhes, ao levar sempre o foco para a decoração da casa e as roupas das crianças, como se as técnicas ali existentes não pudessem servir a arte e não devessem sair das quatro paredes da casa daquela mulher que os lê.

Fiquei pensando em como as atividades tidas como “femininas” são desvalorizadas e passam a ser interessantes apenas quando os homens se apropriam delas, por exemplo, a gastronomia que sempre foi conhecida como culinária passou a ser interessante de uns tempos pra cá após se tornar popular entre os homens, e aqueles pratos que nossas avós faziam incrivelmente bem e nós mulheres muitas vezes nos recusávamos a aprender (porque era coisa de "dona de casa" e nós queríamos mesmo era quebrar estereótipos e ser subversivas) foram "gourmetizados" e hoje cozinhar além de super bem aceito é moderno.


Com as artes têxteis acontece a mesma coisa, se um homem tricotar, bordar, crochetar, tecer, enfim… Ele será um artista, mas se uma mulher fizer tudo isso ela não terá o mesmo "status", a mulher que aprendeu artes têxteis milenares com outras mulheres ao longo da história da humanidade não será vista como artista, inclusive por outras mulheres.

Acredito na desconstrução de gênero e que as atividades devem permear entre pessoas e não ficar segregadas entre mulheres ou homens, mas é preciso que a gente reflita sobre coisas assim, se uma mulher gosta de mecânica de automóveis ela é legal, se um homem gosta de mecânica de automóveis ele é legal também, se uma mulher gosta de tricô ela é uma “vovózinha” (caricaturada) se um homem gosta de tricô ele é “moderno”, o que eu acho é que as atividades tidas como masculinas são valorizadas quando são desenvolvidas tanto por homens quanto por mulheres enquanto que as atividades tidas como femininas são valorizadas quando são desenvolvidas por homens mas não por mulheres, ou passam a ser valorizadas após serem bastante difundidas entre os homens. 

Ainda queremos derrubar esteriótipos e ser subversivas, mas hoje ser subversiva é também valorizar as artes têxteis e outras atividades "nossas", o bordado, por exemplo está cada vez mais sendo resgatado por mulheres contemporâneas e cheias de ideais. Então, não é preciso negar os conhecimentos que estiveram entre nós mulheres desde os primórdios para sermos livres, ser livre é também valorizar as nossas artes sem que os homens precisem antes dizer que elas são de fato Arte. 





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