Os românticos : A origem do estilo gótico (primeira parte)

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É difícil fixar a data exata em que uma moda aparece. Como as formas são múltiplas e muitas vezes francamente contraditórias, qualquer movimento importante nesse campo cria inevitavelmente vários históricos, várias “escrituras”. Pode acontecer até que o assunto faça surgir no momento uma espécie de estranha “briga pela paternidade”: como o esnobismo quer se atribuir a antecipação da novidade - às vezes irrisória - todos procuram “provar” quem foi o primeiro a ter sentido ou expressado este ou aquele estado de espírito, reivindicando assim o invejável título de “inventor” da moda em questão.

A grande onda “romântica” do início do século XIX não faz exceção à regra. Suas origens permanecem confusas, obscuras, misturadas - como um rio nascido do encontro de múltiplos afluentes, alguns aparentes, outros, pelo contrário, subterrâneos; e podemos legitimamente situar seu nascimento lá pelo meio do século. Em compensação, suas manifestações mais espetaculares são fáceis de datar: por exemplo, a representação triunfal da peça de Alexandre Dumas, Henri III et sa cour , criada no dia 11 de fevereiro de 1829 na Comédie-Française, que deveria dar um primeiro impulso a uma verdadeira “febre histórica. Subitamente o “gênero Idade Média” tornou-se moda. Em alguns meses as ruas de Paris se encheram de moças “borgonhesas” de saias compridas com caudas e corselete de mangas bufantes feitas de tecidos estampados com motivos heráldicos, e jovens “cavaleiros” usando calças curtas e gibão com recortes sob esplêndidos casacos de arminho, com a cabeleira merovíngia ao vento enfeitada de bonés de veludo e de asas de pássaros. Às vezes uma barba de rei assírio e uma curta adaga de Toledo enfiada no cinto completavam harmoniosamente a panóplia.

Cartaz da peça de Alexandre Dumas, Henri III et sa cour

Singular espetáculo: nas ruas e nos lugares da moda, o boné denteado de arqueiro aparecia ao lado do penteado em forma de cartucho invertido das grandes damas; as moças usavam cabelos compridos que penteavam lisos, separados por um repartido ao meio presos na testa por correntes de ouro ou prata; entre os jovens multiplicavam-se as barbas largas e quadradas ao estilo Francisco I e as pontudas como as do cardeal Richelieu; e, entre os dândis, todos competiam para ver quem exibiria o sapato de bico mais longo e mais pontudo ou então a maior gola pregueada tipo Henrique IV, em “roda de moinho”, como diziam. O nome de “Idade Média”, no fundo, era suficientemente vago para autorizar qualquer extravagância. E seria um pouco toda a história da França dos séculos XVI, XV e XVI confundidos que começaria a ser exibida nas ruas.

Henrique IV

O teatro e a literatura, em pleno período “histórico”, alimentavam essas modas-fantasmas. Cada peça, cada romance atualizava momentaneamente os trajes de seus heróis. Portanto vestiam-se sucessivamente e na maior confusão, à Felipe, o Belo, à Henrique III, à Hernani, à Charles VII chez ses grands vassaux, à Notre-Dame de Paris e à Tour de Nesle. Os rapazes queriam ser corsários, cavaleiros, cruzados. As moças sonhavam em se parecer com Marguerite de Borgonha, Isabel da Baviera, Maria Stuart e Lucrécia Bórgia. Fantasiavam-se deste ou daquele personagem histórico ou mitológico. Era o grande carrousel das épocas e dos gêneros.

Maria Stuart

Essa onda medieval ou “medievolatria” como alguns a denominavam, não era o apanágio exclusivo dos esnobes ou “modímanos”, segundo o delicioso neologismo criado por Balzac. Todos se viam atingidos, grandes e pequenos, Paris e a província. Seguindo os conselhos da duquesa de Angoulême e de Carlos X, Madame, esposa do rei, deu um baile à fantasia na corte, com o tema da peça de Alexandre Dumas, onde a duquesa de Berry causou sensação chegando maquiada e vestida de Maria Stuart. Em Beauvais, durante uma quadrilha, via-se uma surpreendente Jeanne Hachette dançar ao lado de um rebarbativo Carlos, o temerário, e de um arqueiro escocês. E as crônicas locais relatariam as noitadas particulares em Orléans e Reims, durante as quais os convidados, em costume de época, representavam “cenas” da vida da Donzela. Se a preocupação de exatidão histórica, na maioria das vezes era primordial, alguns se inspiravam maniacamente nos quadros e gravuras da época: e nas semanas que precediam aqueles documentos a partir das quais as modistas trabalhavam.

Duquesa de Berry

Estas, aliás, não tardaram em reagir, inventando a célebre “manga presunto”, reminiscência do traje da Renascença. Sustentados por barbatanas ou espécies de pequenas bolas cheias de plumas, cresciam sobre os ombros das mulheres estranhos enchimentos, às vezes com uma circunferência de três a quatro metros! Comprido ou curto, de gala ou simples, de cor clara ou escura, um vestido só estaria completo se as mangas fossem prodigiosamente “inchadas”. E aquela moda absurda, certamente uma das mais estranhas de um século portanto fértil em extravagâncias, só porque chegara na hora certa para reequilibrar a silhueta da época, com saias bufantes e seus chapéus gigantescos, duraria até depois que a mania pelo medieval passasse.



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