Os românticos - A origem do estilo gótico (segunda parte)

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Para evocar as modas do século XVI, usavam sobre os vestidos as “berthes”, espécie de golas-xales de renda delicadamente perfuradas e aventais de tecidos suntuosos e bordados. Amarravam na cintura algibeiras, pequenas bolsas de couro dos séculos XIV e XV. E, em imitação à célebre dançarina Maria Taglioni, penduravam nas blusas toda a espécie de fanfreluches, echarpes de renda, véus rendados e fitas de seda crua que tornavam a toalete “vaporosa”. Tudo era feito para proporcionar à mulher uma aparência grácil e irreal de um “encantador fantasma de lenda”. 

Marie Taglioni
E os chapéus obedeciam à mesma estética. Ele era erguido sobre a cabeça como uma torre ou exibido à maneira de um penacho. Abas largas orgulhosamente levantadas à castelhana, buquês que subiam aos céus como flechas de catedral ou plumas que caíam docilmente sobre a nuca, o conjunto imerso numa encantadora desordem de gaze e de musseline e pousado sobre uma cabeleira cheia, arrepiada, ondulada, como se nela tivesse acabado de soprar uma tempestade; tudo parecia se organizar em redor de uma encenação da “fragilidade” do rosto da mulher, de sua delicadeza, de sua “imaterialidade”, ou seja, sua inacessibilidade, Afinal, a Idade Média não era o século do “amor cortês”?

Bolsa de couro, séculos XV - XVI, Metropolitan Museum
No mobiliário e na arquitetura, foi o início da moda “neo-gótica”. Redesenhavam as janelas com arcos em ogivas e acrescentavam-lhes vitrais. Preferiam os móveis pesados e atarracados em carvalho de madeira bruta. Os rapazes da sociedade saqueavam os sótãos das residências familiares à procura daquele “cofre” ou do “baú” velho que dariam ao interior de suas casas aquele “aspecto medieval” tão cobiçado. Sonhavam em morar num apartamento “escuro como uma cripta” com imensas peças lajeadas vazias e com uma acústica de catedral, isso sem falar nos longos corredores estreitos, como se via nas gravuras da época. Todos queriam ter o seu castelo, e os mais ricos mandavam construir espantosos “solares” ou “fortalezas” como aqueles que inevitavelmente apareciam nos romances góticos ingleses, com uma orgia de torrinhas, de campanários, gárgulas, ameias, balaustradas em trevo e lucarnas brasonadas. Em suma, um cenário entre o real e o imaginário começava a surgir, onde, na segunda metade do século, a arquitetura renascentista de Lassus e de Viollet-le-Duc viria se inspirar.

Cofre francês, século XV,  Metropolitan Museum
Pois se é fácil mudar de traje, as construções arquitetônicas, estas permanecem; e a moda nesse campo conheceria um ciclo mais longo. Finalmente, na ourivesaria, Froment-Meurice lançou o estilo das jóias “românticas”onde, inspiradas nas arquiteturas extravagantes em ogivas, cenas em miniatura de uma precisão obsessiva representavam cavaleiros em armaduras cercados de pajens de bonés emplumados e galgos, o conjunto enfeitado de escudos e emblemas senhoriais. Toda a “Idade Média” concentrada em alguns centímetros quadrados de cinzeladuras e esmaltes!...     

A moda também encontrava eco na vida cotidiana. Assim era o máximo do requinte se corresponder com “bilhetes” escritos em “francês antigo”, cheios de palavras raras e formas desusadas, assinados com pseudônimos de época. Quase poderiam confiá-los a pombos-correios! Latinizavam os nomes para dar-lhes aquele ar medieval tão conveniente: Pierre tornou-se “Petrus”, Élie se transformou em “Elias”; o comum Louis Durand assinava seus versos com um heróico “Loysius D’andur”. Auguste Macquet, membro do “cenáculo” hugoliano, exaltava-se num sublime e bastante improvável “Augustos Mac-Keat”, meio latino, meio escocês. Quanto ao insípido Auguste-Marie Dondey, funcionário no Ministério das Finanças e poeta romântico nas horas vagas, após ter se rebatizado “Theophile” (em homenagem a Gautier, é claro), verlanizou-se por inteiro num espantoso “Philotée (ou Philadelphe” O’Neddy” - quem faria melhor?

E o linguajar seguia o movimento: na rua fingiam se interpelar à moda dos personagens das peças históricas de Alexandre Dumas e de Victor Hugo: “Por Belzebu!”, “Pelos chifres de Arouch!”, “Inferno e danação!”, “Terra e céu!”, “Cabeça e sangue! ”Finalmente o escritor dândi Roger de Beauvoir teve a ideia mais louca tirada da mania pela Idade Média: lançou uma lista entre seus amigos para comprar o antigo Jardim Tivoli, que ele queria transformar num “campo de torneios” onde se enfrentariam “até a morte” verdadeiros cavaleiros armados de lanças usando armaduras e cota de malhas. Ninguém podia interromper a loucura medieval!

(continua)

Texto extraído do livro “A moral da máscara” de Patrice Bollon   



Leia também:

Os românticos: A origem do estilo gótico (primeira parte) 

Os punks - A revolta pelo estilo: Aparência versus aparência (segunda parte)  







                                                      



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